X

A produção de conteúdos televisivos de entretenimento

A etapa da produção televisiva é fundamental para garantir o sucesso de qualquer projeto televisivo, sendo um exercício constante de gestão e planeamento. Segundo Silva (2014), os produtores são responsáveis pelas várias etapas, quer de uma gravação quer de uma emissão em direto enquanto asseguram o cumprimento do alinhamento e a resolução de imprevistos.

A produção de conteúdos de entretenimento assume um papel central nas grelhas televisivas contemporâneas. Como refere Cádima (2011), num cenário mediático saturado e competitivo, o entretenimento torna-se uma estratégia essencial para captar e manter a atenção do público. Os formatos leves, dinâmicos e com margem para improviso ganham destaque, sobretudo em programas transmitidos em direto ou falso-direto, que promovem interação e proximidade com o espectador (Nazareth, 2016). Já a televisão generalista recorre a conteúdos capazes de atrair públicos heterogéneos, privilegiando formatos flexíveis que articulam temas culturais, informativos e familiares através de uma linguagem acessível. Neste contexto, o entretenimento deixa de ser um conteúdo secundário e afirma-se como um género estruturante na programação.

Destaca-se a televisão regional, como o Porto Canal, que combina informação, cultura e entretenimento com um forte compromisso com a identidade do Norte de Portugal. O canal aposta em formatos próximos da realidade quotidiana, utilizando o entretenimento como veículo de representação social. Programas como ConsultórioFilhos e Cadilhos ou Por Perto tratam temas da saúde, parentalidade e cultura local de forma informal, mas informativa. Cádima (2011) sublinha que esta função de mediação cultural é essencial para devolver à sociedade as suas próprias narrativas. Com uma programação que integra diretos, gravações e reportagens, o Porto Canal utiliza o entretenimento como espelho das dinâmicas culturais e comunitárias da região. Esta estratégia fortalece a presença do canal junto do público e cumpre uma função social ao dar visibilidade a temas e territórios frequentemente ausentes dos grandes meios (Sousa, 2019).

A produção televisiva é uma das áreas mais exigentes do audiovisual, pela sua natureza híbrida e pela necessidade constante de adaptação. Estrutura-se em três fases: pré-produção (conceito, guião e logística), produção (gravação ou emissão) e pós-produção (edição e finalização). O produtor deve dominar a linguagem televisiva, compreender as audiências e adaptar o conteúdo às novas plataformas.

Em entrevista, o produtor Diogo Pereira do Porto Canal salienta que a criação de um conteúdo de entretenimento exige visão estratégica, definição de objetivos, identificação do público e gestão eficiente da equipa. Em programas diários, a pressão do tempo e a necessidade de inovação exigem equilíbrio entre criatividade e operacionalidade. A comunicação entre áreas e a capacidade de decisão rápida são competências fundamentais. Na pré-produção, o produtor planifica os aspetos técnicos e logísticos; durante as gravações, coordena e garante o alinhamento entre planeado e executado; e na pós-produção supervisiona o conteúdo final. No contexto do Porto Canal, Diogo Pereira destaca a necessidade de abordagens criativas e adaptativas, compensando recursos limitados com forte ligação à realidade local.

O papel do produtor abrange todo o ciclo do programa e é muitas vezes subvalorizado, apesar de ser ele quem transforma uma ideia em produto final (Oliveira, 2024). Como afirma Lopes (2014), nada acontece sem o produtor, responsável por articular pessoas, meios, conteúdos e prazos. A entrevista confirma essa importância: o produtor de entretenimento coordena e supervisiona o trabalho de toda a equipa, garantindo que o projeto decorre como planeado. Além da logística, toma decisões criativas, como a seleção de elenco ou a composição visual (Oliveira, 2024). Alejandro Pardo (2010) reforça que o trabalho do produtor é “o menos reconhecido e o mais difícil de descrever”, embora seja quem supervisiona todos os elementos técnicos e criativos. Diogo Pereira salienta que o produtor deve adotar uma abordagem pragmática, analisando o produto desde a conceção até à execução, considerando sempre o público-alvo e os recursos disponíveis. É ele quem prevê custos, estrutura o processo e orienta a produção de forma coerente.

Tal como referido anteriormente, o processo divide-se em pré-produção, produção e pós-produção.

Na pré-produção, o produtor planeia todas as necessidades: convidados, locais, meios técnicos, orçamentos e autorizações (Correia, 2016). É uma fase de previsão e coordenação, onde a criatividade e a definição do público-alvo são fundamentais (Simas, 2016). Diogo Pereira destaca o planeamento técnico antecipado e a contratação da equipa como aspetos essenciais.

Durante a produção, o produtor supervisiona o cumprimento do plano, acompanha as gravações e resolve imprevistos (Worthington, 2009). A produção reflete o planeamento inicial: falhas nesta fase são frequentemente resultado de lacunas na preparação (Correia, 2016). O produtor atua como ponte entre as áreas criativas e técnicas e comunica com as hierarquias superiores para garantir o bom andamento do projeto.

Na pós-produção, o produtor mantém um papel de supervisão sobre edição, som, grafismos e promoção (Worthington, 2009). Mesmo quando o programa é gravado, cabe-lhe assegurar que o resultado f inal corresponde à proposta inicial e respeita as normas do canal. Como afirma Diogo Pereira, “o produtor deve garantir que o conteúdo final está alinhado com a visão original”.

Essa realidade demonstra que limitação de recursos exige estratégias criativas e maior proximidade com a comunidade, resultando em produtos mais autênticos e relevantes para o público.

Referências

Cádima, F. R. (2011). A televisão, o digital e a cultura participativa. Lisboa: Media XXI.

Correia, I. G. (2016). Modelos e processos de produção em televisão na área do entretenimento: Estudo de caso da RTP[Relatório de estágio, Universidade Nova de Lisboa]. Repositório da Universidade Nova. https://run.unl.pt/handle/10362/20229

Lopes, S. (2014). Manual prático de produçãohttps://run.unl.pt/bitstream/10362/20229/1/Modelos%20e%20Processos%20de%20Produção%20em%20Televisão%20na%20área%20do%20entretenimento%20II.pdf

Nazareth, A. (2016). Os programas de entretenimento em fluxo na televisão generalista em Portugal: O modelo de organização e a sua valorização estética numa convergência de media [Dissertação de mestrado, Universidade do Porto]. Repositório Aberto da Universidade do Porto. https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/90621

Oliveira, S. (2024). Produção televisiva: Relatório de estágio [Relatório de estágio de mestrado, Escola Superior Artística do Porto]. Repositório Comum. https://comum.rcaap.pt/entities/publication/c31cb3b0-79fa-4046-b570-5f044d6a91bf

Silva, I. (2014). O papel do produtor criativo no documentário em Portugal [Dissertação de mestrado, Instituto Politécnico do Porto, Escola Superior de Media Artes e Design]. Repositório Científico do Instituto Politécnico do Porto. https://recipp.ipp.pt/entities/publication/d0331a8b-f3fd-46b5-9ba3-f5ebaf8225d3

Sousa, I. (2019). Televisão e ficção televisiva em Portugal (1974–1992): Do advento da democracia à liberalização da atividade televisiva [Tese de doutoramento, Universidade Lusófona]. Repositório Científico Lusófona. https://recil.ensinolusofona.pt/handle/10437/10022

Worthington, C. (2009). Basics film-making: Producing. Lausanne: AVA.

Texto por Ana Carolina Dias

Mestrado em Ciências da Comunicação - Universidade do Minho

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Próximo ArtigoA comunicação, na sua essência, começa com um emissor que envia uma mensagem e um recetor que a recebe, conforme estabelecido nos modelos clássicos de […] Ver mais