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Importância do Audiovisual para uma agência como o CreateLab: principais contribuições e desafios

Dado que o CreateLab se posiciona como uma Unidade de Experimentação e Inovação, pertencente ao CECS, que ambiciona desenvolver soluções inovadoras de Comunicação Integrada, o audiovisual inevitavelmente tem que ser uma das suas armas principais.

Neste contexto, o aspeto de Comunicação Integrada está fundamentalmente ligado a um conceito subjacente aos nossos cursos no domínio das Ciências da Comunicação. Considero que o audiovisual é transversal a todos as áreas comunicativas – jornalismo, publicidade, cinema, televisão e redes sociais.

Desde a invenção da imagem em movimento, nos finais do século XIX, o cinema e o audiovisual têm alterado profundamente o mundo contemporâneo. Este fenómeno foi acelerado ainda mais pela revolução digital, que tem facilitado a possibilidade de qualquer pessoa criar e partilhar as suas fotografias, gravações de áudio e de vídeo.

A fotografia e o audiovisual são elementos-chave nas redes sociais. Os conteúdos de vídeo são tipicamente os mais partilhados e os que têm mais impacto para iniciativas no domínio da comunicação estratégica.

Assim sendo, o audiovisual assume uma importância fulcral para uma agência como o CreateLab e considero particularmente importante a sua visão de Comunicação Integrada, dado que, no fundo, qualquer profissional da área tem que dominar os três percursos abordados nos nossos cursos: informação e jornalismo, comunicação estratégica e audiovisual e multimédia.

Um dos principais desafios neste âmbito é reconhecer que o audiovisual não deveria ser visto como uma área essencialmente técnica. Por exemplo, hoje em dia, para produzir textos jornalísticos, é tipicamente necessário saber usar um computador, um gravador áudio e (eventualmente) uma câmara, bem como dominar softwares de processamento de texto, edição de áudio e (eventualmente) de edição de vídeos. Mas isto não implica que, para ser um bom jornalista, basta dominar estas técnicas.

Enquanto que o jornalismo e a comunicação estratégica implicam um domínio das principais práticas das respetivas profissões, existe o perigo, no caso do audiovisual, de o foco incidir principalmente sobre aspetos técnicos, o techne, em vez dos aspetos que determinam que uma produção audiovisual seja não só bem conseguida em termos técnicos, como também seja capaz de atingir os objetivos subjacentes à sua produção.

Considero que esta área pode corresponder a uma das principais contribuições e também um importante desafio para o CreateLab.

A crescente importância do audiovisual na comunicação contemporânea tem mudado radicalmente a literacia dos cidadãos

Este ponto foi frisado num artigo de Christopher Caldwell no Financial Times[1], quando falava sobre o livro “The Age of the Image: Redefining Literacy in a World of Screens” de Stephen Apkon. Neste, é referido que “escrever hoje é como o latim nas vésperas do Renascimento - a língua de um estabelecimento académico. Os clipes e outros recursos visuais do YouTube são equivalentes ao italiano vernáculo. Eles são a linguagem das ruas e o meio para muitos pensamentos novos e criativos” (tradução própria).

A utilização da imagem como elemento-chave na comunicação traz vários desafios e riscos. Um dos principais riscos é que a imagem toca diretamente nas nossas emoções e no nosso inconsciente. Assim sendo, as nossas capacidades racionais podem ficar entorpecidas e a comunicação pode começar a funcionar mais na base da emoção do que da razão.

Os perigos associados a uma “Sociedade de Espetáculo” e o potencial para usar o audiovisual como ferramenta de propaganda têm sido amplamente discutidos na literatura, incluindo a tese defendida pelo diretor do CECS, o Prof. Moisés Martins. Este defende que estamos a evoluir de um modelo de comunicação baseado no logos e no ethos para um modelo que depende cada vez mais da emoção e do pathos.

Eu partilho estas preocupações mas, ao mesmo tempo, sou mais otimista no que toca à capacidade da comunicação audiovisual trazer algo positivo e que vá para além do domínio da emoção e do pathos.

Desde o século XV, o mundo tem sido moldado decisivamente pela palavra escrita, criando o que Marshall McLuhan categoriza como o “homem tipográfico”. Mas, desde o século XX, o mundo é cada vez mais moldado pela imagem e pelo som.

A palavra escrita continua a ter uma importância central nas nossas sociedades. Aliás, com os tweets, posts, emails e SMS, estamos a escrever mais do que nunca. Mas o audiovisual também abriu novas formas de comunicação e deu um novo fôlego à palavra falada.

A comunicação é cada vez mais performativa, dependente do carisma pessoal do interveniente - que é muito distinto do modelo baseado na palavra escrita

A comunicação visual, sem palavras, também ganhou uma centralidade nas nossas sociedades. Na primeira metade do século XX, esta centralidade foi liderada pelo cinema; na segunda metade do século pela televisão; e desde o ano de 2000, cada vez mais, pelas redes sociais, em complemento com meios tradicionais.

O eventual perigo destes desenvolvimentos é a possibilidade de viver num mundo onde a comunicação é cada vez mais emotiva e propagandística. Ao mesmo tempo, a capacidade do audiovisual em lidar com as nossas emoções e com o nosso inconsciente pode abrir espaço para novos conhecimentos.

Uma das principais “terras desconhecidas” é a própria mente humana e o audiovisual tem dado uma contribuição importante para perceber melhor este mundo para além da Taprobana.

O audiovisual abre caminhos para perceber melhor o poesis do mundo, explorando e criando mitos modernos que ajudam a nos orientar neste mundo cada vez mais confuso. Outro contraponto do logos é o arete, que é ligado ao conceito de "excelência" e a nossa capacidade de realizar a nossa própria essência. O logos, no sentido de poder racional, é só uma parte da nossa identidade e as artes, em termos gerais, podem nos ajudar a nos aproximar de uma maior compreensão da nossa existência.

Inclusivamente, há quem defenda - como o artista de vídeo e multimédia tailandês Korakrit Arunanondchai – que o medium de vídeo pode servir para mediar entre o mundo material e o mundo espiritual, criando paralelos com os rituais xamanísticos. Veja um exemplo aqui.

O cinema e o audiovisual, que de uma certa forma reúnem todas as artes, têm o potencial de elevar o espírito humano. Considero que, no âmbito de trabalho de uma agência como o CreateLab, isto representa um dos principais desafios, mesmo em projetos simples – transportar o espetador para um estado de espírito diferente.

Neste contexto também considero importante que esta Unidade de Experimentação e Inovação explore o audiovisual no âmbito de filmagens 360º, realidade virtual, realidade aumentada (enhanced reality) e media art, que oferecem a possibilidade de experiências mais imersivas. Nos últimos 18 meses, tenho trabalhado em dois projetos para uma instalação fulldome (uma espécie de planetário audiovisual em 180º) e considero que esta é uma área com muito potencial para crescer.

Estes desafios são particularmente importantes na conjuntura atual

Nos últimos 18 meses, temos vivido uma situação sem precedentes na história da Humanidade, em termos de enclausuramento geral, atomização da sociedade e dependência das novas tecnologias audiovisuais. Sem Internet, televisão, emails, redes sociais e plataformas como o Zoom, a opção de lockdowns generalizados teria sido muitíssimo mais difícil de implementar. Nunca houve uma experiência social semelhante na história da Humanidade. Mesmo na pandemia de 1918, nunca houve uma quarentena geral decretada pelos governos e os períodos de isolamento que existiram foram mais localizados e subsistiram durante muito menos tempo.

Também não deveremos esquecer que a crescente tendência para construir um estado de vigilância nas sociedades contemporâneas está intimamente relacionada com o poder do audiovisual e dos meios digitais. Este aspeto foi explorado de forma particularmente interessante no documentário de 2020 “The Social Dilemma.”

Estamos cada vez mais dependentes do (e controlados pelo) audiovisual

Neste contexto de bombardeamento de informação e uma relativa atomização da sociedade, estamos todos mais angustiados e com uma maior tendência para responder emotivamente às notícias.

O audiovisual pode desorientar-nos, mas também pode ajudar-nos a fazer sentido do mundo. A nossa visão do mundo é moldada pelo audiovisual, desde a ficção até os noticiários... Por exemplo, podemos considerar o impacto do número elevado de filmes com contornos apocalípticos e que nos mostram distopias.

As narrativas que agora vemos no cinema e na televisão apresentam desastres a um nível planetário e muitas vezes adicionam elementos do “neo-noir”. As distopias que vemos em filmes e séries como “Blade Runner”, “The Last of Us”, “Contagion”, “Bird Box”, “The Walking Dead” e/ou “Black Mirror” preparam-nos para um mundo com ameaças apocalípticas e a ideia de que não podemos confiar nas autoridades.

Através de filmes como “The Matrix” ou “The Truman Show”, que exploram a Alegoria da Caverna de Platão, temos a noção de que o mundo que é nos apresentado pode ser uma ilusão.

A perceção que vivemos num mundo “neo-noir” onde os nossos líderes são mentirosos e corruptos é reforçada por factos reais, desde o caso do Watergate até Edward Snowden e, ainda, por filmes e séries como “House of Cards”.

Neste contexto, precisamos cada vez mais de orientações que nos ajudem a fazer sentido do mundo

Mas também existe uma crise de confiança nas “sense-making institutions”, incluindo as fontes tradicionais de informação – a imprensa e a televisão – que têm enfrentado dificuldades na transição digital, tendo alterado as suas linhas editoriais nos últimos anos, alienando alguns jornalistas e leitores.

Por exemplo Bill Kovach e Tom Rosenstiel, no seu livro “The Elements of Journalism” argumentam que a possibilidade de os jornalistas questionarem tudo e prosseguirem investigações livres é cada vez mais limitada pelas atuais linhas editoriais.

Estes constrangimentos têm motivado certos jornalistas, como Matt Taibbi, Glenn Greenwald e Bari Weiss, a usar o mundo digital para prosseguir o seu trabalho jornalístico através de podcasts e canais próprios no Substack.

Este conjunto de tendências reforça a crise de confiança nos governos e na comunicação social tradicional, que é aumentada ainda mais pelos grandes saltos nas narrativas fornecidas – por exemplo, a mudança radical entre 2020 e 2021 sobre a provável origem da Covid-19.

Num período de crise e de rápida evolução de paradigmas e explicações, a capacidade de produzir “mitos modernos” - através de filmes e séries - para explicar estes fenómenos é constrangida pela pressão do tempo. Em consequência disto, os documentários, as reportagens e os podcasts têm ganho uma centralidade mais forte do que nunca.

Os vídeos disponíveis online são particularmente reveladores das opiniões do público em geral, através dos comentários escritos, mas obviamente refletem sobretudo as opiniões das pessoas mais apaixonados pelas respetivas matérias.

Neste âmbito, e para tentar orientar-me nesta nova realidade, tenho passado mais tempo a ver discussões envolvendo jornalistas e outros comentadores que debatem os assuntos mais urgentes. Gosto particularmente dos podcasts de Freddie Sayers (Unherd) e dos podcasts e comentários de jornalistas como Matt Taibbi (Rolling Stone) e Kim Iverson (The Hill).

Estamos numa conjuntura de grandes tensões e de múltiplas guerras culturais, com uma crescente clivagem entre as elites e o resto da sociedade. Existem alguns paralelos com os excessos de Versailles, antes da revolução francesa.

Ao nível da ficção, esta clivagem tem sido abordada em filmes populares como Hunger Games, filmes de autor como Nuevo Orden de Michel Franco e séries como a Casa de Papel. Em todas estas produções existe um cheirinho de revolução no ar. Em termos de podcasts, gostei especialmente da recente conversa sobre “virtue-signalling” no canal Unherd: Bari Weiss: Covid has exposed the hypocrisy of the elites.

Ao nível global, os principais receios neste momento, para além do facto de a pandemia poder ganhar ainda mais força, é o risco de uma nova crise financeira, bastante mais forte do que em 2008, que vai reforçar ainda mais a clivagem entre os haves e os have-nots.

Perante estes riscos de uma tempestade perfeita - crise sanitária, crise climática, crise económica e uma nova guerra fria - estou convencido que o audiovisual vai continuar a ser uma ferramenta chave para perceber melhor este mundo em rápida evolução, ao mesmo tempo que nos ajuda a encontrar alguma orientação nestas águas agitadas.

A exploração do audiovisual pode assumir muitas facetas, desde o vídeo mais simples até assuntos complexos e audazes. Mas no caso limite, o maior desafio que todos enfrentamos, e em particular uma Unidade de Experimentação e Inovação como o CreateLab, é conseguir usar o audiovisual para nos ajudar a fazer sentido deste mundo em tão rápida evolução.


[1] https://www.ft.com/content/79c6734a-9d3f-11e2-a8db-00144feabdc0

Martin Dale
Communication and Society Research Centre (CECS) Researcher

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