O TikTok como laboratório de criação: o uso da plataforma na mediação do processo comunicacional
Atualmente, estamos vivendo em um momento em que as fronteiras entre produção de conteúdo, entretenimento e aprendizagem estão cada vez mais ténues. “A comunicação e os media em geral não são apenas janelas para o mundo. Pelo contrário, constituem fontes de mudança, valores, atitudes, formas de encarar o mundo, ideologias, olhares sobre o “outro”, mundos e futuros possíveis” (Cardoso & Lamy, 2011, p.74).
Por isso, as redes sociais, especialmente o TikTok, tornaram-se espaços centrais de mediação cultural, onde o conhecimento está circulando em formatos breves, criativos e altamente visuais. No contexto da comunicação, esse fenômeno revela não apenas uma mudança de linguagem, mas uma transformação nos modos de produzir e compartilhar saberes. Um dos motivos para a mudança foi que “a pandemia mudou radicalmente o cotidiano das pessoas: hábitos culturais foram modificados” (Alves, Sodré & Monteiro, 2022, p. 5).
A partir dessa mudança, está cada vez mais a aparecer novos criadores de conteúdo e eles estão a representar uma nova lógica comunicacional. São jovens que estão aprendendo ao experimentar diferentes abordagens, criando narrativas audiovisuais com recursos simples, e muitas vezes abordam temas complexos com uma leveza que desafia o discurso formal da academia. A sua linguagem nasce do improviso, mas não é desinformada: ela é moldada pela prática, pelo algoritmo e pelo contato direto com o público. Nesse meio digital, o conteúdo não é só o que se diz, mas como, onde e com quem se diz, tal como fazer uma pesquisa de mercado em tempo real.
Essas mudanças trouxeram “consigo a oportunidade de utilizar a mídia social TikTok enquanto instrumento de motivação, interação e desenvolvimento do potencial criativo de alunos” (Alves, Sodré & Monteiro, 2022, p. 5) das áreas de comunicação. Enquanto a educação formal insiste em modelos lineares e hierarquizados de transmissão de conhecimento, os influenciadores trabalham com uma lógica mais interativa e adaptativa, eles testam formatos, observam o retorno do público, ajustam estratégias comunicativas e aprendem com o processo. Essa dinâmica lembra muito mais um laboratório experimental de comunicação do que uma sala de aula tradicional. Com isso, o erro deixa de ser punição para se tornar uma ferramenta de aprendizado.
Além disso, os criadores digitais compreendem o papel da mediação no processo comunicacional, são eles que traduzem, adaptam e ressignificam conteúdos para públicos diversos, usando referências culturais, memes, metáforas visuais e narrativas afetivas. Essa mediação, que na teoria da comunicação pode ser entendida como um processo de construção de sentidos entre emissores, mensagens e receptores, acontece em tempo real nas redes, alimentada pelo engajamento constante e pelo retorno imediato da audiência. Com isso, a comunicação deixa de ser um monólogo e se torna uma relação, marcada pela colaboração e pela circularidade porque na “arena da internet, organizações e pessoas se congregam para mudar algo nos mais diferente temas e perspectivas, lutando por visibilidade e projectando as suas consequências” (Cardoso & Lamy, 2011, p.82).
Visto isso, o laboratório, nesse caso, não é apenas o espaço científico do experimento, mas o espaço simbólico para experimentarmos a nossa forma de comunicação. E o TikTok, longe de ser apenas uma rede de vídeos curtos e danças virais, pode ser entendido como um “campo” útil para observar como os ensinamentos que se aprendem em comunicação podem ser usados no mundo digital. A partir disso, o que está em jogo não é apenas o domínio de conteúdos, mas a capacidade de produzir discursos, construir narrativas e participar ativamente da esfera pública digital.
Referências
Alves, S. H., Sodré, S. S., & Monteiro, J. C. da S. (2023). TikTok e a nova era da aprendizagem criativa. Revista Educação, Humanidades e Ciências Sociais, 7(13), Jan./Jun. 2023. https://doi.org/10.55470/rechso.00050
Cardoso, G., & Lamy, C. (2011). Redes sociais: comunicação e mudança. JANUS.NET e-journal of International Relations, 2(1), [Primavera]. Recuperado em 30 de julho de 2025, de http://hdl.handle.net/11144/500
Texto por Tatiana Lousada
Mestrado em Ciências da Comunicação - Universidade do Minho
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