Porto Femme – Festival Internacional de Cinema
Estudo de caso sobre práticas feministas e queer no cinema português
O Porto Femme – Festival Internacional de Cinema surge em 2018, em resposta a uma inquietação partilhada por um grupo de mulheres que, apesar da crescente participação feminina no audiovisual, identificava um apagamento sistemático das suas histórias e olhares. Inspiradas por iniciativas internacionais, como o Créteil International Women’s Film Festival (França) e o London Feminist Film Festival (Reino Unido), as fundadoras propuseram a criação de um espaço que ultrapassasse o modelo tradicional de exibição fílmica. Assim, o festival nasceu com a missão de não apenas apresentar obras dirigidas por mulheres, mas também promover debates, masterclasses e oficinas que possibilitaram o fortalecimento de redes criativas e a capacitação profissional.
Nos últimos anos, o Porto Femme consolidou-se como um espaço estratégico no ecossistema cultural português, ao conjugar dimensões artísticas, políticas e formativas, posicionando-se como agente transformador dentro das indústrias culturais (Hesmondhalgh, 2012). Para além da exibição cinematográfica, o festival assume-se como plataforma de promoção da diversidade, integrando práticas interseccionais e articulando agendas feministas e queer na sua curadoria. As dificuldades de financiamento enfrentadas pela organização ilustram o paradoxo descrito por Adorno e Horkheimer (2002) no conceito de indústria cultural: enquanto a cultura deveria ser um espaço de crítica e emancipação, é frequentemente subordinada à lógica do lucro. Nesse contexto, iniciativas independentes e dedicadas à diversidade tornam-se “laboratórios de risco” (Couto, 2022, p. 31), operando sob condições precárias e sustentadas por redes de colaboração.
Em 2025, o festival apresentou o programa especial A História do Mundo Segundo uma Lésbica, com curadoria de Joana de Sousa, apoiado pelo Projeto Q – Reflexões sobre Igualdade, Gênero e Inclusão, do Goethe-Institut. Este segmento, que se destacou pela leitura crítica, afetiva e política da história através de vozes lésbicas, reafirma a missão do Porto Femme de dar visibilidade a narrativas historicamente silenciadas. Ao resgatar memórias individuais e coletivas de mulheres lésbicas, o programa propõe uma reflexão sobre o cinema como instrumento de reconfiguração simbólica e política, capaz de ampliar os regimes de visibilidade e desafiar a heteronormatividade.
A análise do Porto Femme, especialmente a partir deste programa, revela que a visibilidade lésbica é entendida não como uma representação pontual, mas como uma prática curatorial e política contínua. O festival tensiona as fronteiras entre o artístico e o ativista, reivindicando o direito de existir, narrar e imaginar fora das convenções heteropatriarcais. Esta abordagem encontra ressonância nas reflexões de Laura Mulvey (1975), Adrienne Rich (1980) e Teresa de Lauretis (1987), cujos contributos teóricos sustentam o campo dos estudos feministas e queer no cinema.
Mulvey (1975) introduz o conceito de male gaze, denunciando como o cinema clássico constrói a mulher como objeto do olhar masculino. O Porto Femme subverte essa lógica ao privilegiar narrativas que reposicionam o sujeito feminino como agente de enunciação, promovendo representações que escapam à passividade e ao fetichismo. Rich (1980), por sua vez, problematiza a heterossexualidade compulsória como regime político naturalizado, defendendo que ela deve ser questionada enquanto instituição e não tomada como condição inevitável. Essa crítica encontra eco nas escolhas curatoriais do festival, que valorizam obras centradas em experiências lésbicas, não-binárias e queer, abrindo espaço para subjetividades que historicamente foram marginalizadas. Já De Lauretis (1987) concebe o cinema como tecnologia de género, argumentando que as imagens não apenas representam, mas produzem e regulam identidades. O Porto Femme, ao propor novas estéticas e narrativas, reafirma o cinema como território de produção simbólica, onde a visibilidade lésbica atua como gesto político e epistemológico.
Durante a oitava edição do festival, a experiência de campo incluiu a participação em atividades formativas, como o workshop “Que Feminismos Podem Falar?”, com Hilda de Paulo, Maria Gil e Shahd Wadi, sob moderação de Cristina Pereira Vieira. O debate abordou o silenciamento de determinadas vozes dentro do próprio feminismo e evidenciou os atravessamentos de raça, classe, território e sexualidade. Essa discussão foi crucial para compreender a abordagem interseccional do Porto Femme e sua aposta em ampliar o escopo da representação, privilegiando vozes dissidentes. No mesmo contexto, o programa A História do Mundo Segundo uma Lésbica destacou-se como eixo articulador entre estética e política, fornecendo material empírico e inspiração teórica para repensar os modos de representação e de memória no cinema contemporâneo.
O festival desenvolve ainda estratégias de impacto sociocultural, como oficinas, homenagens, debates e iniciativas de networking, entre elas Bárbaras fazem match com Distribuidoras e Go Bárbaras! – Pitch That! (Capucho, 2025). Estas ações visam criar oportunidades concretas para cineastas mulheres e dissidências de género, alinhando-se à visão de Hesmondhalgh (2012) sobre as indústrias culturais enquanto espaços de inovação social. As sessões itinerantes e as Femme Sessions reforçam a dimensão territorial e inclusiva do projeto, descentralizando o acesso à cultura e consolidando o Porto Femme como mediador cultural (Leão, 2021).
A visibilidade feminina e lésbica no cinema não se limita à presença, mas diz respeito às estruturas de poder e de representação (Mulvey, 1999; Dess, 2022). Ao construir um espaço que conjuga visibilidade, formação e transformação social, o Porto Femme revela-se um contraponto às lógicas tradicionais da indústria cinematográfica. As práticas curatoriais e pedagógicas do festival confirmam que a representatividade é também um campo de disputa política, estética e simbólica (Dess, 2022). Mesmo diante de desafios financeiros e institucionais, o festival tem demonstrado resiliência e compromisso com a democratização do audiovisual, reafirmando o cinema como gesto político de resistência, memória e reinvenção.
Em suma, o Porto Femme reconfigura o espaço audiovisual português ao deslocar o centro, visibilizar as margens e reafirmar o valor simbólico da diversidade. A centralidade da visibilidade lésbica no festival não se reduz à inclusão temática, mas se manifesta como prática transformadora que desafia as hierarquias de gênero e os regimes de representação. Nesse sentido, o Porto Femme transcende o estatuto de evento cultural, consolidando-se como um laboratório político e estético que reinscreve sentidos no cinema contemporâneo, onde existir, narrar e ver são também atos de resistência.
Referências
Adorno, T. W., & Horkheimer, M. (2002). Dialética do esclarecimento: Fragmentos filosóficos (G. A. Almeida, Trad.). Zahar. (Obra original publicada em 1947).
Capucho, R. (2025). Go Bárbaras! – Pitch That! [Evento no Porto Femme Festival]. Porto Femme.
Couto, S. C. G. (2022). O trabalho que o cinema dá: Dinâmicas de poder e modos de exploração do trabalhador-artista [Trabalho de Conclusão de Curso, Universidade Federal Fluminense]. RIUFF. https://app.uff.br/riuff/handle/1/35061
Dess, C. (2022). Notas sobre o conceito de representatividade. Urdimento – Revista de Estudos em Artes Cênicas, 1(43), 1–30. https://doi.org/10.5965/1414573101432022e0206
Hesmondhalgh, D. (2012). The cultural industries (3ª ed.). SAGE Publications Ltd. https://www.researchgate.net/publication/261554803_The_Cultural_Industries_3rd_Ed
ICA – Instituto do Cinema e do Audiovisual. (2024). Relatório estatístico dos festivais de cinema em Portugal. ICA.
Lauretis, T. de. (1987). Technologies of gender: Essays on theory, film, and fiction. Indiana University Press.
Leão, T. (2021). Para uma análise dos festivais de cinema em Portugal: Génese, institucionalização e desafios. Aniki: Revista Portuguesa da Imagem em Movimento, 8(1), 158–192. https://doi.org/10.14591/aniki.v8n1.738
Mulvey, L. (1975). Visual pleasure and narrative cinema. Screen, 16(3), 6–18. https://doi.org/10.1093/screen/16.3.6
Mulvey, L. (1999). Visual pleasure and narrative cinema. In L. Braudy & M. Cohen (Eds.), Film theory and criticism: Introductory readings (pp. 833–844). Oxford University Press.
Porto Femme. (2019). Catálogo da 2ª edição do Festival Internacional de Cinema Porto Femme. Associação XX Element Project. https://portofemme.com/wp-content/uploads/2024/03/PortoFemmeCatalogo2019.pdf
Porto Femme. (2024). Dossier da 7ª edição do Festival Internacional de Cinema Porto Femme [Dossier não publicado]. Associação XX Element Project.
Porto Femme. (2025). Jornal oficial Porto Femme – Edição Especial 2025. Associação XX Element Project. https://portofemme.com/wp-content/uploads/2025/04/PortoFemmeJornal2025_Digital_weblow.pdf
Rich, A. (2010). Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. In A. Facina & J. Sales (Orgs.), Textos fundamentais de teoria queer (pp. 13–50). Editora Autêntica.
Texto por Giovanna Passarini
Mestrado em Ciências da Comunicação - Universidade do Minho
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